Canto que amavas

Canto o que tu amavas, a minha vida,
porque vens e me escutas, a minha vida,
poruq elembras o mundo em que viveste,
canto ao cair da tarde, minha sombra.

Não quero emudecer, ó minha vida.
como sem este grito me acharias?
que sinal me decara, minha vida?

Eu sou a que foi tua, minha vida.
Nem esquecida, nem lenta, nem perdida.
Vem ao cair da noite, minha vida,
vem e recorda o canto, minha vida,
se lembras a canção já aprendida
e o meu nome recordas neste dia.

Espero por ti sem prazo e já sem tempo.
Não temas a nblina, a noite, o aguaceiro.
Vem sempre, com carreiro ou sem carreiro.
chama-me onde estiveres, ó minha alma,
e anda ter comigo, companheiro.

Gabriela Mistral

Lira de Líquen

Mudos, mudados, moritificados,
estão nos troncos pousados,
na ânsia solar de telhados,
sob céus brancos e estagnados;
imóveis, parecem empurrados
por ventos abstractos e errados:
sem asas, os corpos inclinados,
mortos nos beirais desolados,
sem cantos nem versos contados.
Frios. Astros petrificados.

Nuno Júdice