CAIR DO ALTO

E ficou com as mãos pousadas no teclado,
Esquecida, a cismar num mundo de riqueza:
Supunha-se num baile; um conde apaixonado
Segredava-lhe: «Adoro-a!… Eu mato-me, marquesa!…»

Ah! se fosse fidalga!…Ao menos baronesa…
Que baile! que esplendor na noite de noivado!…
Estremeceu, nervosa, achou-se na pobreza,
E o piano soltou um grito arrepiado.

Absorvida outra vez, prendeu-se-lhe o sentido
À mesma ideia – o luxo. Ia comprar cautelas…
E imaginou de novo o conde enfurecido…

Um palácio, um coupé, esplêndidos cavalos…
Nisto o marido entrou, de óculos e chinelas,
E miou com ternura: – «Anda aparar-me os calos.»

Garcia Monteiro

A minha idade é assim – verde, sentada.
Tocando para baixo as raízes da eternidade.
Um grande número de meses sem muitas saídas,
soando
estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.
A minha idade espera, enquanto abre
os seus candeeiros. Idade
de uma voracidade masculina.
Cega.
Parada.
Algumas mãos fixam-se à sua volta.

Idade que ainda canta com a boca
dobrada. As semanas caminham para diante
com um espírito dentro.
Mergulham na solidão, e aparecem
batendo contra a luz.
É uma idade com sangue prendendo
as folhas. Terrível. Mexendo
no lugar do silêncio.
Idade sem amor bloqueada pelo êxtase
do tempo. Fria.
Com a cor imensa de um símbolo.

Eu trabalho nas luzes antigas, em frente
das ondas da noite. Bato a pedra
dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.

E uma raiz séca, canta-se
no calor. É uma idade cor de salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.

Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade quebram-se
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.

Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.

Herberto Helder

Sonho de 6/6/58

Ao crepúsculo, o castanho-escuro da gruta formava extraordiná-
rio contraste com o vermelho do fogo interior, filtrado através das
traves que bloqueavam a entrada.
No exterior, uma figura com ar pretensamente diabólico, desmen-
tido pelo olhar, esfregava as mãos – enquanto aguardava a vinda da
carruagem que lhe traria a Mulher.
Espectadora, eu, aguardava também o momento do meu desdo-
bramento: fora e dentro do espaço secreto de uma carruagem. Sabia
mais: que as traves da gruta ruiriam à minha chegada.
A carruagem não chegou.

Agripina Costa Marques

REGRESSO

Regresso para mim
e de mim falo
e desdigo de mim
em reencontro

os pontos
um por um:

o sol
os braços

a boca
o sabor

ou os meus ombros

Trago para fora
o que é secreto
vantagem de saudade
o que é segredo

Retorno para mim
e em mim toda
desencontro já o meu regresso

Maria Teresa Horta

IGNOTO DEO

Que beleza mortal se te assemelha,
Ó sonhada visão desta alma ardente,
Que reflectes em mim teu brilho ingente,
Lá fora como sobre o mar o sol se espelha?

O mundo é grande – e esta ânsia me aconselha
A buscar-te na terra: e eu, pobre crente,
Pelo mundo procuro um Deus clemente,
Mas a ara só lhe encontro… nua e velha…

Não é mortal o que eu em ti adoro.
Que és tu aqui? olhar de piedade,
Gota de mel em taça de venenos…

Pura essência das lágrimas que choro
E sonho dos meus sonhos! Se és verdade,
Descobre-te, visão, no céu ao menos!

Antero de Quental

LEGENDA

Não me peças esmola, que sou pobre,
E avaro do meu pouco,
So mo pedem!
Não me tragas esmola, que sou rico,
Se penso na miséria
Que poderias dar-me!
Dar-te-ei, sem que mo peças.
Dá-me, sem que eu o saiba.
Expulsei os mendigos do meu Reino!
Cá, só amor gratuito.

José Régio

Vou Fingir que sou doido

Vou fingir que sou doido,
só os doidos serão felizes.
Vou fingir que sou doido,
só os doidos não têm falta
de oxigénio para respirarem.

Quando eu me cansar de ser doido
e tenha de ceder o lugar aos outros,
retiro-me para a galeria e vou receber,
subindo ao estadium,
a mesma aspiração que sai de mim neste momento,
como uma prece impossível.

Osvaldo Alcântara

DIA DA INVESTIDURA: JANEIRO DE 1953

A neve sepultara Stuyvesant.
O metro ressoava nas abóbodas dos túneis. Ouvi
os carris verdes do El assaltando a Terceira Avenida,
na estrutura adamantina da ponte de Manhattan,
murmurando uma discórdia, visitando a miséria…
Ciclónico zero da Palavra,
Deus de nossos exércitos, que inumou
os azuis imortais de Cold Harbour, Grant!
Cavaleiro, a tua espada está presa na ranhura!
Gelo, gelo. As nossas rodas já não se mexem;
Olha, as estrelas imóveis, todas elas semelhantes,
como átomos sem terra, separados,
e a República convoca Ike
com o mausoléu no coração.

Robert Lowell